"O Mundo sabe que pelo teu amor, eu sou doente / Farei o meu melhor para te ver sempre na frente / Irei onde o coração me levar / E sem receio... farei...o que puder pelo meu Sporting" - osangueleonino.blogspot.com -

Sangue LEONINO

quinta-feira, maio 27, 2010

Ser sócio de um clube

Tradução de um editorial de Toni Ruiz, director da revista Barça:

Passam os anos e o futebol continua a evoluír. O jogo converteu-se num espectáculo e o futebol numa indústria muito forte.

Hoje é provavelmente o maior espectáculo do mundo, tendo-se convertido num fenómeno de massas de uma magnitude económica que se nos escapa.

A imensa maioria dos clubes transformou-se em sociedades comerciais, e cada dia são menos os que funcionam de modo sustentável.
Em muitos casos os clubes sobrevivem graças a investimentos milionários de multinacionais, patrocinadores ou magnatas. MAS NADA DISTO É GRATUITO.

Nestes casos a tomada de decisão só responde a critérios empresariais, quando a realidade do futebol deve ser diametralmente oposta.
Em qualquer empresa o objectivo final dos accionistas passa por ganhar dinheiro,enquanto que para um clube de futebol o que deve importar é a conquista de títulos.

Perante a evidência de que a transformação dos clubes em sociedades comerciais não conseguiu, pelo menos na maioria dos casos, rentabilidade económica, há muitas vozes que reclamam a devolução da propriedade dos clubes aos seus associados. É o caso do governo britânico que estuda reformar a estrutura financeira dos clubes da Premier League.
A força social de um grande clube é a sua base, a sua razão de existir.

Para que um clube possa competir em igualdade de condições com clubes que beneficiam de investimentos económicos extraordinários, a via a seguir é reforçar a sua massa social e ao mesmo tempo explorar novas fontes de receita, provavelmente inspiradas nas possibilidades que são oferecidas por um mundo global.

Ser sócio de um clube deve significar uma senha de identidade. É a afirmação de algo muito próprio. Cada sócio deve poder desfrutar de benefícios e vantagens que só essa condição lhe poderá oferecer.


Deixo este excerto para reflexão sobre aquilo que realmente devemos querer para o nosso clube. Enquanto alguns no seio do Sporting, como é o caso de Dias Ferreira, ainda defendem a total abertura da maioria do capital da SAD a investidores à imagem de Abramovich ou dos Glazer, a maior parte dos clubes que optou por essa via começa já a arrepiar caminho, sobretudo depois de sentir os efeitos nefastos da gestão demasiado empresarial e um peso quase insuportável de dívidas brutais.

Um clube de futebol não é nem nunca poderá gerido como uma empresa, porque mexe com algo de especial, algo de único que é ser adepto de um clube e viver diariamente uma paixão e uma sucessão de emoções difíceis de traduzir em palavras. E uma paixão não se gere como um produto.

Ao beber uma Coca-Cola não me sinto parte da tribo que bebe Coca-Cola, ao comprar acções de determinada empresa não me sinto parte de um grupo. No entanto, ao ser sócio do Sporting sinto um orgulho singular por fazer parte de uma família que partilha valores idênticos aos meus e a idolatria por uma instituição centenária que me tem acompanhado ao longo da vida.

Abrir o capital a magnatas, transferir o poder de decisão para alguém que poderá nem sequer ser adepto das nossas cores, é abrir mão de um poder único: o poder de decidir o rumo do nosso emblema, ter voz em relação àquilo que queremos para o Sporting. Vender a 'alma ao diabo' pode trazer sucesso e êxitos imediatos, mas inexoravelmente trará também - a médio e longo prazo - um preço demasiado elevado e penoso a pagar.

Ao optar por transferir a sua base social para as mãos de um investidor, um clube arrisca-se a perder a sua identidade, ao perder a sua identidade arrisca-se a perder a sua razão de existir... a qual reside e residirá sempre nos seus sócios e adeptos.


Leonino